Dez poemas do livro “Arremessos de um dado viciado”

  
É palavra
que jogo
na vala.

                 É um tiro
                 no escuro
                 sem arma.

É o sopro
de vida
que mata.

                 É um lance
                 de dados
                 ao nada.



Rastros

Dei por encerrada
minha temporada
de caça ao prestígio.
Não quero deixar
legado de nada,
vim deixar vestígio.



Cabimento

Nenhuma festa merece
seu cabelo esticado,

nenhum vestido precisa
que você faça regime,

nenhuma bolha no pé
fica bem com esse salto,

nenhuma citação sábia
precisa ser decorada,

nada que não seja seu
merece ser exaltado,

não há falta nem excesso,
basta que você se baste.



Estigma

Nas tuas calçadas um estigma,
teu cheiro de maré e mijo,
tua noite — meu esconderijo
entre pontes e ruas quiméricas;

tentando revelar o enigma
me arrasto pela madrugada
dessa cidade condenada
por suas mazelas periféricas,

pelos fantasmas que proclamo,
pelo sangue dos edifícios,
pelo mais baixo meretrício,

assim te quero, assim te amo:
humana, selvagem, imunda.
Recife, minha vagabunda.



Haiku

Como eu queria
que toda trepada fosse
antropofagia.



Eu quero ser tua obra,
                          tua musa,
                          tua sina.

Mas você não me cobra,
                   não me usa,
                   não me ensina.
  


Isto não é um poema

É um investimento sexual.



Felicidade é uma questão de urgência

Não dá pra esperar
a melhor proposta.
Não dá pra ficar
escolhendo muito
o que mais se gosta.

Nem precisa dar
nenhuma resposta.
Se muito pensar,
a felicidade
é sempre uma bosta.



Cáries e carências

Sem você por perto
manter um sorriso
custa muito caro,
nem plano dental
traz algum amparo.



Diferentes bancos

Pra você tudo tem preço
e tudo requer dinheiro.

Pra mim tudo tem valor
e por isso permaneço,

mesmo sendo passageiro
sem saber por onde voo.
   


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